Quando Descartes reduz sua condição, o que o distingue como indivíduo e gênero, a uma mera substância pensante as raízes de um perigoso espírito político desponta no pensamento ocidental. Hayek apontou essa ânsia (1948, p. 8) reformista do homem (aqui) e como Descartes antevê como pode render frutos na vida social e política[^1], mas não desenvolve nessa direção. Uma direção já havia sido tomada pelo filósofo francês, porém outra foi indicada.

Uma substância pensante não é a melhor caracterização para o homem. Descartes pensa o homem fora do que ele vive e nesse momento encontra sua essência, o seu modo de ser e suas plenas potências sem as restrições da res extensa. Mas, o que um homem fora de tudo o que lhe compete é realmente capaz? Como será esse homem? É um homem, ainda?

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Renè Descartes

O que é interessante na obra de Descartes é que os reais poderes do homem são revelados por trás do que temos diante de nós. Pois, aqui no mundo temos a substância com alguns predicados, como corpo, família,costumes, etc, são ruídos na percepção da real natureza do homem.

Mas Descartes não poderia prever como sua experimentação mental abriria precedentes. Rousseau sempre é indicado como o momento de virada, mas em Hobbes a linguagem já sofre uma atenção semelhante ao redefini-la aprioristicamente não pelas situações em que se efetiva. Mas Rousseau mantém esse lado do espírito da proposta cartesiana: conhecesse um objeto não pelo o que ele é e como se dá, mas por amputá-lo de sua vida constitutiva. O selvagem é mais livre por não ter idioma, que é uma forma imposta, externa; o selvagem é mais livre por não ter família, pois herança não é uma questão para ele, porque não tem família; o selvagem não tem crise existencial pois religião não lhe é uma categoria de raciocínio; o selvagem é mais porque não é civilizado. Essa inversão na explicação é desenvolvida por Michael Levin.

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Thomas Hobbes

Essa atitude continua hoje, houve vários que a reproduziram de um modo ou outro, mas continua. Temos um espírito de “libertação” em nossas escolas. Eu vejo na grande maioria de meus colegas de sala. Eles foram libertos das amarras da ignorância e limitação, sabem o que o sociedade precisa, na mesma medida que negam-na como fato constitutivo do homem. Há uma frase que não sei a autoria mas é algo como “quem ama a humanidade odeia o vizinho”.

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Jean-Jacques Rousseau

Bom, antes uma pequena regressão: no primeiro semestre meu professor de filosofia política, a quem tenho grande dívida por seus auxílios em minha escrita (sim, minha escrita era pior, e o pouco que progredi é por muita atenção desse professor) propôs que estudássemos um  pensador Renascentista, Maquiavel. Eu como neófito no pensamento conservador fiquei muito apreensivo, mas foi muito interessante. Maquiavel, após meses olhando seu trabalho me pareceu alguém bem mais sensato do que qualquer um dos anteriores. Ele olhou para vários pensadores e viu o homem como ele era.

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Nicolau Maquiavel

O medo que rondava meus raciocínios foi planejado para o segundo semestre. Meu professor, como todo bom ser humano real (contrário ao sentido tomado pro Descartes e Rousseau) fez todo um projeto pedagógico em uma linha filosófica de sua preferência, no pensamento pós-estruturalista: feminismo, multiculturalismo, ideologia de gênero e afins.

Deveria protestar ao meu professor? Sim, e fui falar com ele, com o respeito que eu não vejo nas militâncias. Quando falei com ele aleguei o que seria o ocultamento de bibliografia, e, um ponto que não dei importância, mas agora nessa sexta (10/09) me dei por conta ao falar com os “aliados” em minha sala: a falta de conhecimento que ocorre naqueles que são adeptos dessa religiões políticas da esquerda-progressista. Lembro de ao falar com meu professor que quando eu objetasse meus colegas em sala eles não saberiam me responder, não teriam contato com as categorias que emprego. No meio do semestre passado já tive pequenos embates em sala, além das aulas de filosofia política. Mas foi curioso, muito curioso mesmo, porque em vez de ver um embate, uma reafirmação de postura, o que percebi é a total inépcia em recuperar a posição afirmada, note-se posição afirmada, não argumentada. Um exemplo foi quando um colega de sala disse que há muitos “discursos” (a lá Foucault) em dissensão e que precisamos de objetividade, a dele. Bom, um dos pensadores que me foi uma surpresa agradável foi Karl Raimund Popper e toda a sua obra e um  interessantíssimo artigo chamado O mito do referencial comum me permitiu fazer uma invectiva. Em um sala de filosofia, em um pretenso debate alguém afirma, outro objeta e o primeiro se consterna por não entender a objeção que lhe é imposta, porém o único sinal de que algo não lhe vai bem é o assentimento do professor com as objeções apresentadas?. Há algo de errado aí.

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Michael Levin

Mas não sou o único, em minha sala tenho amigos de inclinações fora da esquerda-progressista, nem sempre e graças a Deus nos pensamos tudo igual, e não é uma questão de grau em um mesmo pensamento, mas diferenças mesmo! Então, meus amigos já empreenderam intervenções em debates com enfoques distintos do meu – após um tempo essas simulações de conversas encenadas cansam – e também não tiveram o prazer de um debate com a potente esquerda-progressista. Um colega de sala esta lendo Eric Voegelin e em uma aula de discussão sobre os conceitos ideologia e utopias fez claras alusões ao comunismo por imanentizar o elemento escatológico na história humana. O mesmo professor de filosofia política foi o único a travar diálogo com esse amigo. Suspeito que muitos alunos alunos nem perceberam o ponto que meu colega discorreu.

Em outra conversa sobre o Escola Sem Partido um outro amigo questionou o corte do conteúdo medieval dos currículos e argumentou que prejudicava aprender a natureza da democracia – o “Deus” moderno. Só o professor conseguiu manter diálogo com esse amigo.

E mesmo em uma aula que não é comum haver debates, história da filosofia, uma professora (outra com quem tenho grandes dívidas pelo meu desenvolvimento em minha escrita) emitiu o que seria uma diretiva em suas aulas “não esta nem aí se é ou não cristão, veremos medievais e eu considero Agostinho o maior filósofo”. Problemas com filósofos cristãos não parecem ser um assunto polêmico para cristãos. E nem o único aluno budista parece esboçar o menor constrangimento. Olhe essa notícia e alimente uma esperança, pois assim como eu enfrento Hume, Kant, Protágoras, Richard Rorty e semelhantes, porque um aluno que é de compreensão naturalista seria mais capaz em suas capacidades cognitivas se não ver o que lhe contradiz? Por que discussões sobre questões humanísticas devem sempre ser sobre uma ótica (pós)estruturalista? Ou em termos de confronto de classes? Parece que por não ver o que pode ser uma contradição se desenvolve mais? Será que quem escolhe assim pouparia os filhos daqueles que não desfrutam de suas opiniões, caso fosse um professor “mente aberta”?  E como Flávio Morgenstern disse em um podcast que um bom curso de humanas é aquele que te apresenta ideias que não esperava.

Meus colegas de sala de atitudes progressistas parecem não ter costume de ver o contraditório, nem dialogar com ele. E por isso são mais “críticos” (era uma palavra que eu gostava, mas hoje esta totalmente esvaziada de seu real significado).

Se eu não considero as situações, perspectivas, valores e símbolos de uma ou mais pessoas, como posso tomar uma ação que o ajude? Se não olha o ser humano como é, então estou ajudando a substância pensante inefável? Como seria uma filosofia política fundada nessa atitude? Provavelmente um ser humano como nunca antes visto irá surgir, um ser humano não apenas novo como na pintura de Salvador Dalí i Domènech[^2] mas que nasce no mesmo clima.

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DALI, Salvador. Criança geopolítica observando o nascimento do novo homem. Óleo sobre tela, 1943. 45,5 cm X 50 cm.

Meus colegas de sala se consideram mais “críticos” porque “enxergam” os fatores de distorção e subjetividade nos homens. Eles até podem contribuir e muito com essa atitude, mas é uma pena que enxergam tudo que não seja sua postura como fator de distorção. Apesar de parecer igual, dizer que alguém esta errado não é idêntico a dizer que esta alienado. Eu posso saber matemática e posso errar, mas se em uma discussão em matemática  eu nem souber o que seja a matemática, eu estou excluído ou com sérias dificuldades para contribuir em um debate em que ela seja o assunto. Se não me é possível participar desse reino da objetividade entende-se que estou excluído da conversa. As vezes aprendemos muito com filmes e um excelente filme estrelado por Jack Nicholson, Um estranho no ninho, narra a história de um presidiário que faz para ser transferido para um manicômio e percebe que um preso tem data para o fim da pena, mas um internado esta totalmente sujeito ao médico. Meus colegas de sala não dizem que estamos errados, mas que nem vemos a situação discutida, por isso não precisam discutir conosco.

Ao ver o que o pensamento reformista do homem causa discuti com mais dois amigos o quanto tem sido sem graça as conversas desenvolvidas em sala, e não nos refiríamos as nossas, mas as que nos somos ouvintes passivos. Em que medida eles estão desenvolvendo suas capacidades ao negarem o confrontamento? Não ver o antagônico? Quando que filhos de uma mesma mãe vão gritar filhos da puta entre si?

Ao voltar da universidade encontro com um um amigo do bairro, ele faz história e dias antes de minha última intervenção em uma conversa este amigo reclamava de ver seus “aliados” de esquerda apelarem para o conceito de “vivência”. Esse amigo se diz marxista, mas se há mais marxistas como ele, preciso conhecê-los, pois ele lê muito e desenvolve muito bem seus argumentos e não incorre nas categorias comuns do marxismo.

E eu tinha falado a ele que meus colegas de sala ao serem confrontados com objeções, perguntas, ou até mesmo para esclarecerem uma afirmação de forma mais clara, fogem com afirmações do tipo “eu não estou falando do mesmo que você”, ou, “é uma questão de ideologia” e ele disse que assim eles evitam a síntese dialética o que não seria lá muito de um marxista. Depois ele me disse que “vivência” não é tipicamente marxista, apesar de ser empregado amplamente na esquerda e ele não compartilha desse valor. Esse meu amigo do bairro é filho tardio desse pensamento.

Essa atitude reformista esquece um homem para ser bom tem que ter o contexto em que possa ser bom, todos elementos que encontramo na vida real, como o contraditório, o antagônico, o liberal, o conservador, o nem-aí, e todos os tipos e seus nichos e tudo o mais. Confesso que tenho a convicção que eles sofrem um grande prejuízo serem desenvolvidos nessa linha. Como um homem pode ter seu poder crítico se lhe é vetado olhar ideias que podem seduzi-lo? Ou que possam trazer-lhe um problema? A inversão na explicação leva à uma inversão na ação: não se ensina para saber mais. Nas próximas décadas encontraremos milhões de adultos que parecerão inconsequentes, que não aprenderam com os seus erros pois, eles não erram, mas possuem obstáculos opressores para que sua perfeita natureza se manifeste e encontrarão um culpado pela condição em que se encontram. Desse último caso não tenho dúvida que acontecerá.


[^1]: HAYEK, Friedrich August von. Individualism: true and false. In: Individualism and  economic order. Chicago: The University of Chicago Press, 1948. p. 1-32.

[^2]: UNIVERSIA BRASIL. Conheça Criança Geopolítica Assistindo ao Nascimento do Novo Homem, de Salvador Dalí. Disponível em <http://noticias.universia.com.br/tempo-livre/noticia/2012/12/24/985726/conheca-crianca-geopolitica-assistindo-ao-nascimento-do-novo-homem-salvador-dali.html#&gt;. Acessado em 11 set 2016.

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